Amantes do Trance

1- Antes de mais, há quantos anos és Dj? E sempre dentro deste género musical?

R: “Comecei a brincar com softwares de produção em 2010, na altura usava o Reason, o meu fascínio era ligar cabos aleatoriamente e ver o que acontecia. Um pouco mais tarde comecei a usar o Ableton Live e em 2013 com 2 amigos, Zé Baptista e Zé Zambujo fizemos a primeira actuação ao vivo de um projecto chamado SCREAMAX que era uma espécie de fusão que resultava numa mixórdia eletrônica com instrumentos tocados ao vivo, como clarinete e saxofone.”

2- Quando o mundo do psytrance aparece nas nossas vidas, generalizando, arrebata-nos e vai
crescendo em nós. Recordas-te de como esta música/mundo chegou à tua vida? E quantos anos
tinhas?

R: “O meu primeiro contacto com este estilo de música foi através de um amigo em 2012, que era apaixonado por psytrance, no carro dele só haviam CD’s de Skazi, GMS, 1200Mics, Infected Mushroom. Ele já ia a festas com regularidade, e após perceber que eu demonstrava um certo fascínio pela complexidade musical daquele estilo de música, não tardou em querer que eu ouvisse as músicas que ouvíamos no seu renault clio num P.A de uma festa no mato. E assim foi.”

3- Recordas-te em que festa te estreaste como Dj? Dirias que essa foi a atuação que mais te
marcou?

R: “Recordo-me da primeira festa que apresentei os meus primeiros trabalhos totalmente electrónicos, na altura o meu projecto tinha o nome de Oktopuz, e a convite do irmão do meu amigo Zé batista, que foi meu companheiro de produção quando comecei a rodar os primeiros botões, tocamos numa festa no barreiro em 2017. A mais marcante foi sem dúvida cerca de um ano mais tarde, uma free organizada por um amigo Kezin Romão, que me pôs a tocar a seguir a Rafyx, que na altura não conhecia. Como o carregador do meu portátil estava avariado, reparei que ele também tinha o mesmo modelo que eu, então pedi-lhe que me emprestasse para a minha actuação.
Quando comecei a tocar haviam umas 12 pessoas no dancefloor, incluindo o Rafa (Rafyx) que pensava eu estar a controlar se não lhe estragava o carregador… Tal foi a minha surpresa quando na primeira música ele começou a dançar e só parou quando o meu live acabou.
Ficamos horas a conversar e foi um momento de viragem para mim pois foi a primeira vez que tinha conhecido alguém que também partilhava esta paixão pela produção.”

4- E qual foi o teu primeiro lançamento?

R: “O meu primeiro lançamento foi um álbum chamado “Transcendente Connections” e saiu numa editora sérvia no final de 2017. Um trabalho muito prematuro, mas que decidi lançar na mesma a convite deles.”

5- Os artistas de psytrance possuem influências de outros géneros musicais. O que te inspira fora do universo eletrónico? Que outras formas de arte fazem parte do teu processo criativo?

R: “Os meus gostos musicais são abrangentes, e vão desde a música clássica, ao reggae, passando pelo Jazz e Rock psicodélico. Sou também muito aficionado pelos bpms mais lentos e chillout. Para além da música, gosto bastante de cinema, foi a área que estudei na universidade, ainda que apenas durante um ano, pintura abstracta e digital.”

6- Tens algum conselho para os artistas de trance em ascensão?

R: “A meu ver o maior conselho é não ter pressa, disfrutar do processo de aprendizagem, que será uma constante, e divertirem-se, ainda que por vezes existam momentos de frustração, que mais tarde se traduzirá em experiência.”

7- O que mantém vivo o teu amor pela música eletrónica?

R: “O retorno que recebo em partilhar a minha música com pessoas que adoram a vida é sem dúvida muita lenha que mantém em combustão esta paixão que se expande a todas as artes criativas, a música electrónica é mais uma delas no meio desta poligamia artística.”

8- No que toca à produção, dedicas-te todos os dias a fazer música? Quanto tempo, geralmente,
demoras a criar um som completo?

R: “Sem dúvida que todos os dias contribuem para os meustrabalhos musicais, tudo está interligado com a atenção que dedicamos às coisas, a mente artística trabalha 24H sempre com sede de inspiração, que pode aparecer a qualquer momento, até a ouvir o limpa para-brisas do carro ao ritmo do pisca… Em relação ao tempo que levo a criar cada música, varia completamente, tanto posso levar 1 semana como 1 mês, depende muito do foco e do elemento secreto, a inspiração, que não tem nenhuma fórmula mágica para se revelar, e nunca se sabe quando vai aparecer daí a persistência também ser uma factor importante para terminar as coisas. Gosto muito de uma frase do Salvador Dali que diz, “Eu não sei quando surgirá a minha próxima grande ideia, mas quando ela chegar, é bom que esteja no estúdio.” Daí também passar muito tempo no estúdio
dedicando tempo e permitindo que as ideias se manifestem.”

9- Tens muitas músicas nunca lançaste? Qual é o motivo principal?

R: “Sem dúvida que tenho, muitas delas são de uma altura em que estava na busca de amadurecer o meu som e perceber melhor a linguagem da produção. Quando comecei a produzir, defini objectivos e lembro que um deles passava por terminar uma música a cada semana, tendo em mente que a minha música número 13 ia soar bem diferente da minha número 34 por exemplo. Sem pressas de percorrer esse caminho, mantenho o mesmo pensamento, e já perdi em quantas vão.”

10- Tens algum próximo passo pensado para o teu projeto? O que se segue?

R: “Neste momento como membro da Reversible Records desde 2019, lancei à dias o meu novo EP (su)Realistic Optimism, que espero que os leitores desta entrevista possam escutar assim que houverem novidades. Estou também a trabalhar num projecto chamado Fibonaccid’s em que faço dupla com o Rafyx. Em paralelo com isto dou também aulas de produção a malta que quer começar a dar os primeiros passos na produção, é algo que me dá muito gosto, e é um privilégio poder ocupar os meus dias a partilhar a paixão pela produção musical.”

11- Quando estás em palco, quais são as emoções e pensamentos que mais tens presentes?

R: “Seria muito difícil de enumerar todas ou transmitir o que sinto em concreto pois cada momento é único e repleto de emoções e pensamentos, mas um que sem dúvida é uma constante é o de gratidão a quem está lá a escutar a minha música, aos que me apoiam diariamente ou apoiaram em algum momento, e a mim próprio por não ter parado quando houveram adversidades, permitindo-me continuar partilhar a minha música e levá-la mais além, bem como ela a mim.”

12- Gostarias de colaborar com algum artista em especial? Porquê?

R: “Muitos mesmo, mas um que adoraria ter feito uma collab era sem dúvida o Bruno Isidro, Module Virus, uma das minhas maiores inspirações. De certa forma gosto de pensar que as decisões criativas que ele tomou enquanto artista ajudaram a esculpir o meu universo criativo, por isso agradeço-lhe também por ter dedicado grande parte da sua passagem pela vida a criar obras que certamente irão continuar a fazer vibrar o ar em muitos dancefloors em todo o mundo, e quem sabe, universo.”

13- Se pudesses escolher qualquer lugar no mundo para tocar, onde seria?

R: Qualquer sítio é perfeito, mas o melhor é onde as pessoas escutam!

14- Obrigado por te juntares a nós nesta entrevista! Queres deixar algumas palavras à comunidade psytrance portuguesa antes de terminarmos?

R: “Eu é que agradeço pelo interesse em conhecerem o meu background. Vou deixar aqui algumas palavras que gosto muito: Eclipse, maracujá, radical, eternidade. E agora uma pequena frase: “A grama é amarga”. Se repararem lê se da mesma forma se lerem ao contrário. Levem a vida com sentido de humor! Divirtam-se!”

Entrevista de Ana Filipa Santos

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