Amantes do Trance

1- Antes de mais, há quantos anos és Dj? E sempre no género de psytrance?

R: Em primeiro lugar quero agradecer aos Amante dos Trance pelo convite. Já tinha tido oportunidade de escrever uma entrevista anteriormente para a Radiozora em Novembro de 2019 mas ainda não tinha o prazer de poder fazê-lo na minha língua.

Comecei o meu projeto no inicio de 2012. Onde inicialmente tocava Night full on, sensivelmente um ano depois comecei a trabalhar os meus sets com influencias de twilight e forest.

2- Quando o mundo do psytrance aparece nas nossas vidas, generalizando, arrebata-nos e vai crescendo em nós. Recordas-te de como esta música/mundo chegou à tua vida? E quantos anos tinhas?

R: Com certeza que assim o foi para a maioria de nós. No meu caso em particular conheci a música e a cultura do trance em Portugal com 15 anos (2005) , começando com um cd de Infected mushrooms, algumas faixas de Logic Bomb, 1200 Microgramas e uns tantos pioneiros do trance como o ouvimos hoje em dia. Com a mesma idade comecei a frequentar festas de amigos, de amigos de amigos e por ai fora até aos grandes festivais como o fredoom festival de 2007.

3- Recordas-te em que festa te estreaste como Dj? Dirias que essa foi a atuação que mais te marcou, ou qual?

R: A primeira festa em que toquei para dizer a verdade foi a que mais tive medo. Como comecei a ir a festas relativamente nova, naturalmente muitas das pessoas com quem tinha contacto eram djs, produtores, decoradores, organizadores de festas... nessa altura no meu ouvido e entendimento o tipo de som que passava nas festas já não era bem aquilo que eu mais gostava de ouvir. Uma noite numa festa um amigo meu e dj disse-me que se eu não gostava do som que ouvia, então porque não ia eu tocar. Pensei nestas palavras uns dias e quando dei por mim estava a arranjar material para aprender a tocar. Umas semanas depois estava a tocar na minha primeira festa, uma outdoor de amigos feita pela Nostradamus, uma Org local feita por amigos, que proporcionou durante anos optimas reuniões familiares psycadelicas no Algarve. Festas onde muitos dos djs Nacionais que tocam há mais anos tiveram na grande maioria oportunidade de participar. Estava cheia de medo e inseguranças de falhar  .

A atuação que mais me marcou foi na primeira edição do Ik festival em 2018. Estava a chover torrencialmente, antes de eu ir tocar a tempestade era tão forte que a energia foi cortada varias vezes durante o set anterior, mas mesmo assim havia resistentes a dançar que permaneceram na pista de dança alagada. Quando comecei a tocar a energia faltou por mais duas vezes logo no inicio, e ali estava eu as escuras com o pessoal á minha frente a querer dançar e desfrutar da musica tanto como eu... Depois de a energia ir a baixo essas duas vezes a chuva parou, o céu limpou e passados uns minutos o que tinha sido uma tempestade com os mais respeitosos e resistentes guerreiros do trance a nadar no dancefloor tinha dado lugar a um céu completamente limpo e estrelado. A mim deu-me uma vontade enorme de aproveitar aquele momento e meter toda a gente a dançar e a agradecer aquela luz ao final do tunel de uma festa que podia ter sido arruinada mas em vez disso foi das com a energia e espírito mais brutal onde já estive.

4- No que toca à produção, dedicas-te todos os dias a fazer música? Quanto tempo, geralmente, demoras a criar um som/track completo?

R: Comecei a aprender a produção apenas há alguns meses, já tinha algumas noções mas a serio foi há pouco tempo, ainda sou um "be-bé" com tudo a aprender. O meu primeiro track fiz em três ou quatro dias, dias esses onde é preciso dizer que a produção é o foco principal e em que tens mesmo de dispor todo o tempo, amor e trabalho para que alguma coisa boa apareça feita. Mas depende muito do tempo que se tem para disponibilizar a isto no momento, outras faixam demoram um mês ou mais a serem feitas... não existe uma regra, tanto podes estar mega inspirada e fazer uma musica em dois ou três dias como ficar "encravada" numa faixa durante meses. Nas alturas em que a inspiração desvanece e não existe esse entusiasmo e pré disposição para te dedicares de corpo e alma ao que estas a criar mais vale fazer outras coisas e aceitar que faz parte do processo. A produção como qualquer outro processo criativo é feito de altos e baixos e é preciso respeitar isso.

5- Os artistas do psytrance possuem influências de outros gêneros musicais. O que te inspira fora do universo eletrónico? Que outras formas de arte fazem parte do teu processo criativo?

R: As minhas influencias e gostos pessoais fora da música eletrónica passam pelo Jazz, Reggae, Bossa nova, Blues... Costumo dizer que só não gosto de três estilos de musica, KKP-Kúduro, Kizomba e musica pimba. A palavra pimba neste caso refere-se a muito mais do que só a música popular portuguesa, existem muitos sub-estilos de musica que intitulo de Pimba.

Relativamente a outras formas de arte relacionadas com o meu processo criativo, sou uma pessoa que gosta de fazer muitas outras coisas ligadas as artes e a criatividade mas nem tanto com a parte musical. Gosto de pintar, desenho , reciclagem e reaproveitamento de produtos do dia a dia, recuperar moveis, trabalhar com diferente matérias e superfícies, fotografia, escultura, cosmética natural... e tantas outras áreas e atividades tão diferentes entre elas. Acho extremamente importante desafinar-nos a nós mesmo a aprender e a fazer coisas novas que nunca fizemos e não nos dedicarmos a ser bons em apenas uma coisa. Todas as formas de criação são a meu ver parte causal da inspiração para produzir e criar sets e tracks novos assim como para a vida em geral. O cérebro humano precisa de muitos estímulos criativos para se sentir ativo e realizado, de nunca fechar as portas ás oportunidades de conhecer e aprender coisas novas nas mais distintas áreas, acho que se não abrir-mos horizontes a outras coisas se não a musica, vais acabando por deixar de ter onde ir buscar inspiração.

6- De contactos com artistas, produtoras, organizadores e outros, existem sempre alguns que se tornam importantes, amigos ou mentores, gostarias de referir alguns?

R: Ao longo do meu percurso não poderia deixar de frisar alguns nomes que foram e são importantes, a Nostradamus onde tudo começou. A Safe nature projects e a Chaishop por me terem acompanhado e serem sempre onde estou e me sinto em casa . O Carlos Carmo (Spiritual Fingers) por ter sido um dos primeiros a acompanhar tudo e sempre me ter apoiado. A Purple Hexagon Records por apostar em mim desde 2015. E claro ao meu companheiro de vida e mentor na produção Ruben Sponar ( Rubuscubus) por tudo o que me ensinou e ensina todos os dias.

7- Quando estás em palco, quais são as emoções e pensamentos que mais tens presentes?

R: Muita gente pode pensar que sou muito seria e concentrada em palco, a verdade é que apesar de já não se comparar a há uns anos atrás mas eu ainda fico nervosa antes de subir ao palco. Os primeiros anos a ansiedade era a ponto de me fazer vomitar antes de atuar. Mas depois de fazer a primeira passagem a ansiedade e o nervoso passam, a adrenalina sobe e o meu universo fecha-se numa bolha onde só existe a viagem sonora que está a ser feita. Esse tempo e espaço funcionam como um refugio do mundo onde só existes tu mesma e o som (seja tocando em casa seja com o público) as emoções advindas são criadas pela escolha de músicas feita para essa ocasião. Geralmente as musicas escolhidas transmitem-me força, energia e a mais profunda sensação de conforto e proteção, como se nesses minutos a tocar, nenhum dos males do mundo me pudesse atingir. É sem duvida das sensações mais bonitas que experienciei até hoje.

8- Se pudesses escolher qualquer lugar no mundo para tocar, onde seria?

R: Ui pergunta difícil. Se pudesse escolher mesmo... acho que era no cimo de uma montanha com uma vista para uma enorme floresta para os lados da Finlândia ou algum País do norte da Europa onde pudesse ter a cabine de som com vista para o fenómeno das auroras boreais. Nem precisava muita décor e afins, "bastava" um bom P.A, um bom equipamento de som, os meus cds, as pessoas que mais gosto e quem mais quisesse acompanhar. Eu tinha é de estar virada para a vista em vez de para as pessoas, nunca gostei muito desse conceito de que o publico "deve" estar a olhar para o Artista... por mim poderíamos estar sempre lá numa cabine com uma pequenina janela como se viu em algumas edições do Modem festival. Contemplando a Natureza na companhia de um som estrondoso, acho que não poderia pedir melhor.

9- Tens algum próximo passo pensado para o teu projeto? O que se segue?

R: O meu próximo passo chama-se Agartha e é o meu live a solo de Dark Prog. Já há algum tempo que queria iniciar algo dentro desse estilo, a ideia inicial era de Dj7 mas decidi apostar por caminhos mais desafiantes e estimulantes seguindo para o meu projecto a solo.

Podem já ouvir um pequeno aperitivo no Soundcloud e já agora conectar com a respetiva pagina no facebook, deixo aqui os links de acesso.
soundcloud.com/agarthalive
facebook.com/Agarthamusic-108958390758587

10- Sobre o projeto Polarians em colaboração com Rubuscubus, o que nos podes adiantar?

R: Em relação ao projeto Polarians posso dizer que é algo que nos tem dado e certamente continuará a dar um prazer, entusiasmo e uma aprendizagem enormes. O conceito do nosso conceito consiste basicamente em sintetizar sons do nosso dia a dia e traze-los para as nossas musicas. Para isso construimos uma caixa de efeitos sonoros que nos permite através de gravação, manipular vários materiais, texturas e objetos quotidianos a fim de nos ajudar a gravarmos os nossos próprios sons para as nossas músicas. Se queremos um som de bolinhas de água, gravamos bolinhas de água, se queremos um som cristalino de vidro, gravamos o som dos movimentos que fazemos a mexer do vidro e por ai a fora... Sem ter-mos de nos restringir a cria-los única e classicamente através de sintetizadores. O nosso objetivo é misturar o digital e o acústico a fim de conseguir sons mais orgânicos e humanizados. Lançámos o nosso primeiro Ep no passado dia 24 de Fevereiro deste ano, intitulado como "Synthwood" em homenagem á nossa Box, a caixa de madeira de efeitos sonoros que construimos. Como em forma de presente de boas vinda ao mundo optamos por disponibilizar o nosso primeiro EP para download gratuito, na nossa página de soundclod (https://soundcloud.com/polarians) e bandcamp https://polarians.bandcamp.com/releases.

11- Nos últimos anos o psy trance tem vindo a crescer pelo mundo fora, o número de festas/festivais e novos artistas aumentam a "cada dia". Na tua visão, esta nossa caminhada está no ritmo certo ou existe algo que poderíamos estar a fazer mais pelo crescimento da cena?

R: Ouve uma altura á uns anos atrás que sinceramente não estava satisfeita com o panorama geral das festas em Portugal, a meu ver o som que era escolhido na maioria dos line ups era o mesmo e fazia mesmo falta maior diversidade de estilos. Hoje em dia posso dizer que a diversidade e qualidade na escolha dos artistas mudou e na minha opinião para muito melhor. Quanto ao resto dos fatores de crescimento não me vou alargar a discutir, há coisas que acho que sem duvida eram melhores há uns anos atrás, como em outras coisas estamos muito melhores hoje em dia. No geral gostava apenas que a aceitação, harmonia, entreajuda, companheirismo, cooperação e respeito pelo próximo se mantivesse na comunidade do trance, sempre , aqui ou em qualquer parte do mundo.

12- Obrigado por te juntares a nos nesta entrevista, queres deixar algumas palavras à comunidade psytrance portuguesa antes de terminarmos?

R: Obrigada eu mais uma vez pelo convite! A única mensagem que quero deixar é que se continuem a divertir e a cultivar o ouvido, a mente e a alma com boa música, seja ela trance ou qualquer outra, tentem sempre alargar os horizontes a estilos e sub-estilos diferentes dos que estão habituados a ouvir e depois então decisão se gostam ou não. O ouvido se não for trabalhado permanece sempre com os mesmos gostos e por isso não evolui. Existe muita variedade e muita qualidade no som dos mais diferente estilos, permitam-se escutar fora da caixa e vão ver que vão ser surpreendidos, porque se todo o trance é uma viagem então já pensaram que todos os estilos de trance podem ser viagens e jornadas completamente diferentes? Aproveitem-nas.

PIC by: João Catarino

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