Amantes do Trance

Neste momento, milhões de neurónios do teu cérebro estão a trabalhar para tenhas uma experiência do mundo á tua volta – uma experiência consciente. Como é que isto acontece?

Bem, responder a esta pergunta é bastante difícil, pois a consciência é tudo o que existe: sem ela não existe o mundo, ou até nós próprios. Sem ela não existe nada. Até mesmo quando sofremos, sofremos de forma consciente, seja devido a uma doença mental ou dor física. Então se nós experienciamos isso, poderão outros animais ter consciência também? Será a consciência produto da inteligência ou apenas resultado da nossa natureza como seres vivos? Vejamos: não temos de ser inteligentes para sofrer, mas provavelmente temos de estar vivos.

Para quem nos tem acompanhado desde os primeiros artigos, não será novidade o fato de que não sabemos nada acerca de como o corpo e a mente dão origem á consciência. Porém, tem havido uma explosão de estudos científicos de todas as áreas (com psicadélicos por exemplo) na tentativa de colmatar esta falha. Pensemos na consciência de forma semelhante a o que é a vida. Isto é, antes de biólogos e físicos explicarem exatamente quais os mecanismos biológicos que determinam o metabolismo, reprodução e tantos outros processos, a vida permanecia um mistério. O mesmo se passa com a consciência. Assim que começarmos a desvendar os processos básicos e a explicar as suas propriedades em termos do que está a acontecer no cérebro e no corpo, o mistério tende a desvanecer. Pelo menos esse é o plano.  Mas quais serão essas propriedades?

Tendo em conta tudo o que se sabe, gosto de pensar na consciência em duas formas:

  • Consciência do Mundo: experienciando tudo aquilo que nos rodeia (sons, formas, cheiros, etc)
  • Consciência do Eu: experienciando o que é ser a minha pessoa, tendo o papel principal no meu filme pessoal

Comecemos pelo mundo que nos rodeia. O cérebro funciona como um motor preditor e que está constantemente a prever o que se passa em nosso redor. Tentem imaginar o que é ser um cérebro: não há luz, não há sons, apenas há sinais elétricos que o informam do que o rodeia. Aquilo que sentimos é o melhor palpite do cérebro sobre aquilo que nos rodeia. Mesmo quando os sinais sensoriais não mudam, se mudarmos o melhor palpite do cérebro, mudamos a nossa perceção do que nos rodeia, mudando a nossa experiência consciente. Exemplo: pensem numa daquelas imagens que causam ilusão ótica. Depois de vos ser explicado a razão da ilusão, conseguiram mudar a maneira como experienciavam a imagem certo? No entanto essa imagem nunca foi alterada, apenas mudou a vossa perceção! Compreendem, portanto, que não só estamos dependentes de sinais sensoriais exteriores ao cérebro, mas também dependentes dos sinais que ele concebe. Não sentimos o mundo apenas passivamente, na verdade criámo-lo! O mundo como o experienciamos vem tanto ou mais de dentro para fora, como de fora para dentro.

No entanto, quando as predições percetuais são demasiado fortes, o resultado é muito próximo com estados alterados de consciência (psicadélicos) ou até mesmo psicoses. Pensemos por um segundo: se uma alucinação é uma perceção descontrolada, então uma perceção é uma alucinação controlada, onde as predições do cérebro estão a ser processadas com informações sensoriais do mundo que nos rodeia. Estamos todos a alucinar, e a todo o momento. Só que quando concordamos com as nossas alucinações, chamamos-lhe realidade!

 

Sobre o que experienciar seres tu próprio, também isso é uma alucinação controlada formada pelo cérebro. Temos várias formas de experienciar as coisas na primeira pessoa. Sentir que temos um corpo, sentir o mundo na primeira pessoa, sentir vontade de fazer coisas, de sermos a mesma pessoa ao longo do tempo. Para além de sentirmos tudo o que nos é exterior, também sentimos o interior do nosso corpo. Contudo, não o experienciamos como um objeto, aliás, a menos que algo corra mal, não o experienciamos de todo. Só quando regulamos o interior do nosso corpo, é que experienciamos o quão bem, ou mal, esse controlo está a correr.  Então, as nossas mais básicas experiências de ser alguém, e um ser com um corpo, estão profundamente ligadas com os mecanismos biológicos que nos mantêm vivos. Todas provêm do nosso sentido de permanecer vivos. Experienciamos o mundo e nós próprios com e devido aos nossos corpos.

 

Resumindo:

  1. O que vemos depende do melhor palpite do cérebro sobre o que nos rodeia.
  2. A nossa experiência sobre o mundo vem do interior para exterior e não só do exterior para o interior do cérebro.
  3. A experiência do que é sermos uma pessoa, não se trata exatamente de saber o que está lá, mas sim de controlar e regular os mecanismos.
  4. As nossas experiências do mundo e de nós próprios nele, são uma espécie de alucinações controladas que têm permanecido ao longo da evolução de milhares de anos de forma a que nos mantenhamos vivos num mundo de perigos e oportunidades.
  5. Prevemo-nos a nós próprios de forma existirmos.

 

O fato de estarmos constantemente a prever-nos traz algumas implicações, como:

  1. Assim como nos percebemos mal a nós próprios, também podemos perceber mal o mundo que nos rodeia.
  2. A nossa forma de ser conscientes, é apenas uma forma de o ser. A consciência gerada pelos humanos, é uma pequena região num vasto espaço de consciências possíveis.  A forma como percebemos o mundo e nós próprios está profundamente ligada com mecanismos biológicos. Mecanismos esses partilhados com outros seres vivos.

 

Com o grande sentido de compreensão, vem o grande sentido de realização de que somos uma parte de, e não à parte, do resto da natureza!

 

By Dr. Horus
Foto: Yonatan Benaksas

Inspirado pela TED Talk de Anil Seth “Your brain hallucinates your conscious reality”

 

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