ZNA GATHERING – ENTREVISTA COM PEDRO CARVALHO

Entrevista com Pedro Carvalho, fundador do ZNA Gathering

Entrevista com Pedro Carvalho fundador do ZNA Gathering

1- ZNA Gathering não se intitula como um Festival como muitos outros, assim expressando que não deseja a ‘grandiosidade’ ou ‘fama’ que esse conceito trás, gostarias de nos explicar melhor qual a mensagem por detrás deste conceito?

R: O ZNA Gathering foi criado com o objectivo de reescrever a evolução e o rumo das festas de trance em Portugal.  Sentimos que estava na altura de dar um passo atrás de forma a podermos olhar para um futuro mais promissor.

Para muitos de nós as festas de trance nasceram num âmbito de espírito livre, num contexto genuíno e puro onde a “grandiosidade” e a “fama” não eram sequer tomadas em consideração. Associado a um estilo de vida este movimento tornou-se no alicerce da nossa coexistência.  E é a ideia de voltarmos a proporcionar esta experiência que nos motiva a fazer do ZNA a nossa realidade.

2- Quais são os aspetos que consideram mais importantes para a organização de um evento como é o ZNA Gathering?

R: O mais importante para nós é conseguirmos superar as expectativas de todos os que nos apoiam com coerência, ética e responsabilidade. Esta premissa tem nos vindo a motivar a fazer sempre melhor mesmo quando a clássica logica financeira indica o contrário.

O mais importante para nós é garantir que o ZNA se mantem um festival familiar e acolhedor, fiel aos seus princípios. O nosso caminho passa por melhorar a qualidade de edição para edição sem nunca ter de aumentar a quantidade, e mantendo em foco a qualidade da experiencia individual e colectiva dos nossos “Zambus”




3- O ZNA tem vindo a crescer em nome e, como se encontra várias vezes no mundo psicadélico, este fator não vem de estratégias de Marketing básicas ou de publicidade paga, mas sim da boa experiência de quem vai e atraí outros a virem experienciar semelhante felicidade. Como é que este crescimento tem vindo a influenciar e a desafiar a organização do evento?

  R: O ZNA nasceu na nossa necessidade de criar algo à nossa imagem, algo livre de politicas e pressões financeiras.

A nossa experiência diz-nos que quando as prioridades mudam é quando se cometem decisões menos genuínas, quase sempre em prol da segurança ou como reflexo de receios. E é exactamente esta segurança/receio que quisemos retirar da equação. Sabíamos que o caminho ia ser longo e duro, mas que o retorno emocional iria ser inigualável.  E como tal, todas as nossas decisões têm esse cuidado especial.

Agora é óbvio que usamos marketing e publicidade, até porque estas ferramentas são as que nos ajudam a passar a nossa mensagem, a diferença está na forma cuidada como nos associamos e como nos posicionamos.

O facto de sermos alvo de um “passa palavra” muito positivo, assenta no percurso de mais de 25 anos a promover estes mágicos momentos de união entre seres, sob uma chuva de música de qualidade, Arte e sorrisos que tudo dizem.

A atenção que nos é dispensada, aumenta em muito a nossa responsabilidade e vontade de manter contente quem nos tem sempre apoiado.

Tudo isto culmina obviamente nos maravilhosos 8 dias que partilhamos a cada 2 anos nas margens da Barragem de Montargil. Que por questões de brio e de dedicação queremos sempre melhorar apostando mais nos pormenores de edição para edição.

4- Qual o vosso critério de seleção de artistas cada ano?

R: O nosso conceito é dos mais peculiares que temos conhecimento. É verdade que é dos mais limitativos, mas na nossa opinião é o que tem garantido uma genuinidade impossível de reproduzir.

Os nossos artistas são aqueles que nos fizeram apaixonar por este movimento na década de 90. Nós acreditamos que a música faz o ambiente e que estes músicos são de certa forma os responsáveis por o trance psicadélico ser algo tão intenso e puro.

5- Quais são os principais aspetos positivos na localização deste evento?

R: A ZNA Land tem o privilégio de estar inserida numa reserva natural que nos garante a exclusividade e a beleza inigualável do local. Longe do betão, este éden perdido transporta-nos para a comunhão com a natureza.

Os pinheiros e os sobreiros ancestrais, as praias de areia branca inacessíveis por motor da Barragem de Montargil e a fauna e a flora deste local são sem dúvida os aspectos positivos mais relevantes que a nossa “casa” tem para oferecer.

6- Quais foram, ou qual foi, o maior obstáculo que sentes que tiveram que passar durante estes anos de ZNA Gathering?

R: Como tudo o que é “alternativo”, desde o inicio que enfrentamos diversos obstáculos e desafios.

A discriminação que paira sobre este tipo de eventos é um osso duro de roer. Muito disto tem que ver com desconhecimento e medo por parte da sociedade em geral, e que foi infelizmente alimentado por eventos menos bem conseguidos, e pela generalização de que somos alvo. Isto torna mais difícil a relação com a diversas entidades que emitem as licenças e pareceres de forma a viabilizar o ZNA enquanto evento 100% legal. Mas também aqui, com o tempo vamos mostrando uma imagem diferente, mudando preconceitos e até colhendo elogios e boa vontade.

A decisão de trabalhar sem patrocínios e de uma maneira livre e independente, acarreta um stress adicionado que temos de superar com confiança e fé.

Tem sido com grande sacrifício pessoal e emocional que conseguimos superar até agora todos os momentos menos felizes que fizeram parte deste percurso em aberto que estamos a viver com o ZNA.

O maior desafio emocional foi e é convencer as nossas cabecinhas humanas básicas e nossas famílias de que o retorno emocional na vida é mais importante do que o retorno material. Lol

Sem esse enorme suporte das nossas famílias e amigos seria impossível chegar até aqui…





7- Se pudesses dinamizar um evento como este noutra parte do mundo, que sítio escolherias? Porquê?

R: Já tivemos a honra de receber inúmeros convites para parcerias de festas/festivais sob a alçada do ZNA Gathering.

Apesar de por um lado ser interessante a ideia de propagar a nossa visão por outro achamos que seria a generalização de algo tão especial. Não estamos interessados em generalizar, ou seguir o caminho mais obvio.

O ZNA é um conjunto de factores. Factores que demoram uma vida a colocar em prática, e que se materializam de dois em dois anos naquele local mágico. Tudo que não seja fruto deste conjunto de factores para nós não pode representar o ZNA Gathering. Alem disso, na maioria dos casos essas festas de “franchising” visam a promoção e o crescimento do publico.

O ZNA está prestes a chegar ao número limite de participantes, e não precisa nem deseja o crescimento exponencial.

 8- Sem pretender entrar no teu espaço sagrado: qual é o teu local de eleição dentro do ZNA? O que gostas mais de contemplar neste ambiente?

R: O local de eleição do ZNA é sem dúvida o dance-floor. Debaixo de pinheiros rodeados pela água da barragem ali se vivem os momentos mais intensos e purificantes.

É onde se dissolve a visão do ego e se cresce em direcção ao espírito.

No entanto, esse dance-floor é um reflexo de tudo o que o rodeia. A energia que os Zambus lá espalham é alimentada por toda a experiencia de estar ali naquele momento, e essa passa por todo o evento desde o Importantíssimo Chill Out, a insubstituível área do Zen-Bu-Space, a entrada, o parking, ás casas de banho, o bar etc...

Numa visão mais pessoal e intima,  o meu espaço preferido é o olhar e o sorriso que cruzo com as pessoas em qualquer lugar do Gathering. É como se disséssemos tudo sem palavras. A partilha, a sinceridade daquele brilho nos olhos, a sensação de sermos entendidos… não existe nada mais intenso e gratificante.

9- Certamente que já passaram milhares de diferentes pessoas e de gerações por este evento, todos reunidos por motivos semelhantes. Como é que a interação e energia de tantas pessoas diferentes contribui para o espaço e para a qualidade do ZNA?

R: O ambiente do ZNA é dos mais genuínos e puros que temos tido a oportunidade de vivenciar e isso enche-nos de vaidade e orgulho. Temos tido um publico diversificado e cosmopolita, mas que durante estes 8 dias tende a fundir-se num só ser e maneira de estar, fazendo sobressair a alegria e a noção de estarmos a viver algo especial e único. A expressão máxima disso é o tal sorriso que mencionei antes.

Essa união e alegria são o verdadeiro motor do nosso movimento.

10- As mudanças de paradigmas e a nova era em que entramos têm, como em tudo, fatores positivos e negativos e o mundo do Trance tem aumentado tando nos seus “seguidores” como também em comunidade. Gostarias de desenvolver que opinião tens sobre o rumo do Trance em Portugal e/ou no mundo?

R: Isto é um tema que dá pano para mangas.

De forma bastante sucinta podemos afirmar que a evolução trouxe e continua a trazer muitos aspectos positivos como também trouxe e continuar a trazer alguns negativos. A nossa missão é potenciar os positivos e minimizar os negativos, sem pretender ser donos da verdade absoluta.

 

11- Gostarias de nos deixar com alguma novidade relacionada com a edição de 2019 que se aproxima?

R: Esta edição irá apostar ainda mais na experiência sensorial. Além de criarmos melhores estruturas e de continuar em apostar em decoração exclusiva que terão com objectivo oferecer mais conforto a todos, acreditamos que é importante darmos lugar a formas diferentes de expor arte, seja ela auditiva, visual ou interactiva.

Queremos cada vez mais ser mecenas de Arte e promotores de cultura.

Nesse sentido teremos um crescimento de qualidade em todas as áreas.

Também teremos algumas novidades no lay-out do festival que o pretendem  potenciar e optimizar.

12- Os Amantes do Trance sentem-se inspirados por projetos que visam o crescimento pessoal e em comunidade e que espalham valores de amor, respeito e sustentabilidade da nossa Terra. Pondo assim, gostarias de deixar alguns conselhos e pedidos para a comunidade do Trance?

R: Gostaríamos muito que todos trouxéssemos um pouco da noção de coexistência e do respeito para com o próximo e o meio que se vive na grande maioria dos festivais de trance para o nosso quotidiano.
Que conseguíssemos ter a mesma predisposição para as diferenças e para o desconhecido no nosso dia a dia.

Certamente viveríamos todos num mundo substancialmente melhor. Creio que este é o sonho que nos une a todos em um só.

Mais informações sobre o ZNA Gathering:

Evento: ZNA Gathering 2019

Website: www.znagathering.com

Entrevista por Maria Rebelo
Foto #Desconhecido