ENTREVISTA #77 JAHGALI

1-Como é que a música entrou para na tua vida?

R: A música sempre esteve presente na minha vida e sempre foi uma parte essencial da mesma em várias perspectivas, desde o berço com faixas de Nina Simone, Muddy Watters, Aretha Franklin, etc etc etc, tudo influências do meu pai que sempre gostou de Soul, Jazz, Blues.
Da parte da minha mãe as influências eram mais Pop e Nacionais, e muito cedo nutri o gosto próprio pelos sons do mundo e urbanos como o Reggae, musica africana, hip-hop, etc...
Sempre estive ligado as artes performativas principalmente na dança onde cheguei a construir uma mini carreira por assim dizer, em particular na multi-cultura hip-hop logo era apenas lógico que o meu interesse e dedicação fossem parar à musica!
Em termos de musica electrónica o meu interesse surgiu um pouco tarde (tirando o house comercial tipico daquela altura na zona industrial do Porto que nunca me interessou muito) e começou pelo DNB que considero típico da cidade Invicta. Depois de conhecer o Trance em especial o GOA, foi paixão à primeira vista e passado uns anos de raver, começou a minha jornada como DJ.

2- Como é que te sentiste ao assumir o controlo da nave pela primeira vez?

R: Ui, foi transcendente!
E tenho mesmo gosto em dizer que cada vez que toco continua a ser como a primeira...
A primeira foi nos UpperDecks do Porto rio. Mas a primeira que me deu a sensação de levantar a nave e levar todos comigo, já em formato outdoor, foi na festa de anos do grande Fábio Tenro em Fafe em finais do Verão de 2016.

3- Como é que surgiu o projeto Jahgali?

R: O projecto Jahgali surgiu de uma paixão pelo sub estilo do Trance GOA, que se aprimorou muito no ZNA 2015, e por muita influência de amigos DJs e organizadores!
Na realidade, em 2016, ao ajudar uma amiga numa pequena festa que acabou por não se realizar, decidi aceitar o desafio de tocar, e apesar de depois a festa não ter acontecido, todo o treino e toda a folia não foram em vão e daí começou esta jornada que já posso chamar de extraordinária!
Sem dúvida que dois nomes que tenho de referir são os do João Santos aka Cosmic Factor que me apoiou e ensinou tudo o que sei, tecnicamente falando e do grande Cale, que foi sem duvida o meu adubo neste estilo tão único e especial...
Além disso, o apoio na comunidade foi enorme e todo o trabalho árduo, juntamente com isto, resultou no sucesso do presente.

4-Como é que está a ser o teu início de carreira?

R: Ora bem, o início da minha carreira, como disse em cima, foi inesperado. No entanto, bastante acelerado e trabalhoso...
Tive literalmente um percurso em ascensão. Rapidamente passei das áreas alternativas e de pequenos convívios (os quais ainda toco e que mais me enchem a alma) para os grandes palcos nacionais, tendo já tido algumas experiências a nível internacional.
Mas acho que o que mais marcou o inicio foi a ligação com a música e as pessoas. Aquele conjunto de factores que tornam o acto de passar som, como um ritual, um escape de espirito e mente.

5- Se tivesses oportunidade de pilotar a nave onde quisesses, em que parte do mundo é que paravas?

R: Hummm, tendo em conta que a Bélgica - para mim a capital moderna do GOA já é um destino certo até ao fim do ano, teria de dizer Ásia ou África ...
São sítios que sempre quis visitar, e o leque de bons festivais e boas ideias lá é infindável.

 

6- Como é que foi a tua primeira experiência com o Trance?

R: Ui! A minha 1ª experiência com o Trance foi arrebatadora, uma verdadeira "Life changing experience...
Se bem me recordo, em 2012, a primeira experiência que tive Outdoor, não distanciou muito da primeira festa em si, que foi indoor, logo passo já a frente porque para mim 50% do que me apaixonou foi a beleza dos sítios, a profundidade, o afastamento de toda a selva de cimento, e apesar de organizar e participar em festas de interior, a casa do Trance é na Natureza!
Posto isto, toda a convivência, a quantidade de pessoas e quão bem coexistiam deixou-me perplexo. Adiciona-se a música electrizante, penetrante e intrigante e boom, temos uma paixão para a vida toda!

7- Achas que o Goa está bem explorado atualmente em Portugal?

R: Antes de mais nada, de uma forma ou de outra, mais ou menos visível, o GOA nunca deixou de estar presente na cena underground. Sempre existiram grupos de pessoas como os Goadelic Freaks Movement que preservaram a sua essência e o seu papel na cultura!
Posto isto, a pergunta é simples, mas a resposta é complicada ... Se acho que está cada vez mais presente o GOA, de novo, no movimento? Sim está! Se acho que a vertente base de todo um estilo nunca deveria ter caído em desuso? Sim, também acho. Na minha opinião tudo tem o seu tempo e tudo está cada vez, mais diversificado! Quando eu comecei o FullOn reinava, depois a fase da psicodelia, e agora a fase mais negra, e todas me agradam, para mim Trance é diversidade como todas as culturas musicais!
E cada vertente tem o seu papel nas nossas reuniões. Não são viagens individuais, mas sim uma viagem conjunta com diferentes fases porque é assim que a vida é.
Voltando a questão, o GOA cada vez está mais presente, e cada vez tem mais pessoas a lutar por isso. No entanto, sendo o estilo que é, e sua pureza, também não convém que cresça para onde não deve ou será corrompido o que o vulgarizará.

8- Ao longo deste ano o teu crescimento foi notório e encantaste os amantes com melodias de arrepiar e boas vibrações constantes no dancefloor!!! O que é que tens a dizer sobre a importância deste ano para a tua carreira?

R: Este ano foi sem duvida o mais importante, e o que mais me retribuiu, e sinceramente, nunca esperei que fosse tão cedo!
Além de muito conhecimento e conexões, tive oportunidade de explorar e adquirir conhecimento não só a nível de mistura e material, como mesmo da preparação técnica de áudio e todos os problemas que com ela vêm associados
Acreditem, passei por quase todos! Além disso, tive oportunidade, desde cedo, e por isso agradeço a todos os responsáveis, de tocar em grandes palcos e passar por belos momentos!

Além disso este ano representou a minha entrada para a Goa Madness Records da Bélgica e a criação da 604 Freaks Productions, que devo dizer, voltará em 2018 em peso!
Sem dúvida dos melhores anos da minha vida, espero que não da minha carreira.

9- Como é que descreves a tua experiência Connection 2018?

R: Connection, Connection...
De salientar que tudo o que disse aqui é o meu ponto de vista, logo o único ponto de vista de que realmente posso falar! A experiência em termos profissionais foi óptima, fui bem tratado das duas vezes que toquei, tudo correu como estipulado com a organização, para minha admiração, e as performances foram incríveis e sem dúvida das mais marcantes da minha vida!
Aquele dancefloor é vida, e sem dúvida é a carta na manga daquele festival porque nunca tinha encontrado nenhum assim ... e apesar de todos os inconvenientes a música foi sempre da melhor.
Como raver no entanto, falta de condições e para mim algumas falhas de organização e cuidado ... mas overall foi uma boa experiência.

10-Qual é que foi a atuacao que mais te marcou? E porquê?

R: Sem dúvida a primeira vez que toquei com o Calé no HardClub numa noite de Cosmosis pelo valor sentimental que ele sempre teve para mim e por ter sido a minha primeira vez naquela casa; quase todas as vezes de Couce pelas razões óbvias, casa e amigos; a pré party e o Connection em si por terem sido actuações flawless, pela quantidade de gente e boa energia que tivemos, e pelo facto de estar junto com um parceiro e irmão que nunca dispenso, o Goaacen!
Não neste projecto em particular, mas juntamente com o B_Artist e o Cosmic Factor, como Cosmic Benders, foram sem duvida das actuações que mais mexeram comigo, não só, pela energia e paixão que sente na cabine, mas também porque desde á um tempo para cá que o nosso percurso musical anda sempre lado a lado, e não há melhor sensação que caminhar ao lado de irmãos!

11- Fala-nos um pouco do movimento "GOA Freaks" em Portugal?

R: Bem, como referi á pouco, o movimento do GOA em Portugal tem sido protegido e emancipado por um grupo vasto de pessoas que neste momento se encontram á parte, e fazem por isso, do movimento main stream do Trance em Portugal!
Sem dúvida que os Goadelic Freaks Movement são a parte mais integrante e fundamental neste desenvolvimento...
Tendo, agora, surgindo novas organizações com o mesmo amor, carinho e objectivos por este nosso querido gênero! 604 Freaks Productions, Kunayala Records, tudo orgs e labels que inserem GOA nos seus eventos e como tal contribuem para a sua existência. Óbvio que com o passar do tempo e com a grande aderência que o GOA está a ter neste momento, outras produtoras e orgs como a PsyMagic Minds, Tranceformati'Ohm e a Space Music Drops também exploram este estilo e contribuem para o seu crescimento... No entanto como referi na outra pergunta, este crescimento tem de ser comedido, senão este estilo que continua a ser o mais puro do Trance, será, como tudo neste mundo, corrompido pela sobre-aderência e falta de respeito pelo movimento.
O fulcral deste movimento dos "GOA Freaks" como lhe chamas, é o facto de ainda se basear na mentalidade de que o Trance é de todos mas não para todos, e de de diferentes maneiras, tentar controlar o publico e manter coisas essenciais, como a decor, a magia, o ambiente, e não um cartaz de morrer cheio de estrelas que torna as festas nada mais que um negócio.

12-Graças a ti e muitos outros artistas o Goa trance e todas as suas vertentes estão cada vez a conquistar mais amantes, achas que a essência do Goa está a ser bem preservada em terras nacionais ou ainda há muito para ser feito em relação ao estilo mãe do movimento que nos amamos?

R: Para já vejo coisas boas a acontecer e da forma certa...
Claro que ainda há muito para fazer mas como me farto de referir ás vezes o mal é, e contra mim falo, fazermos demasiado e banalizarmos culturas que no fundo sempre foram underground e off stream, mas como em tudo, a evolução torna isso inevitável. Depende apenas de nós (Produtores, DJs, Labels e organizadores) preservar e fazer crescer de forma correta esta nossa semente!

13-O que é que te fascina nas nossas reuniões ? (o que é que te chama mais a atenção numa festa , o que sentes ao Atuar)

R: que sempre me fascinou!
O bem estar, a sensação de liberdade e coexistência de que nos privam no dia a dia...
Sempre vi as festas como as reuniões tribais modernas. Todas as tribos em várias culturas se reuniam em datas importantes como Luas cheias, Equinócios, etc etc e punham suas diferenças de lado apenas para celebrar a vida, tudo o que ela contém, e deixarem a dança ser o canalizador principal de energia e amor!
Óbvio que neste ponto de vista utópico, o papel de quem comanda a cerimónia e dos músicos é o mais importante, logo, o que sinto ao actuar é extrema felicidade pois a música que me move e exorciza, consegue ter o mesmo efeito noutras pessoas, e a viagem que eu construo contribui em grande parte para esse ritual! Esse sentimento é insubstituível...

14-Como todos nós somos curiosos...Consegues nos dar alguma luz em relação ao teu próximo ano ??

R: O próximo ano ainda está muito incerto ... Já que só toco á 2 anos e que este foi um ano de muita hype, não sei bem o que esperar... Já tenho algumas boas datas marcadas mas só o tempo dirá o resto! Provavelmente terei mais gigs lá fora, já que a minha jornada com a Goa Madness apenas começou e ainda em Dezembro vou pela 3ª vez actuar no estrangeiro, mas como disse, ainda está tudo em aberto... No entanto, como sabem, estou envolvido em vários projectos como por exemplo as Baratunxas e tudo o que envolve a 604 Freaks Productions e vos garanto que isso não vai acabar. Pessoalmente só posso dizer que não pretendo parar de evoluir como DJ em termos técnicos e sem duvida quero explorar todos os métodos de mistura, bem como novos Hardwares (CDjs, Vinil, etc etc etc) Posso.vos dizer também que apesar de ainda muito verde, a minha jornada de produção musical está a começar. E apesar de tudo isto levar tempo, prometo-vos que mais cedo ou mais tarde começarão a ver frutos!

15- Deixa uma mensagem a todos os amantes!

R: Acho que não sou ninguém para deixar mensagens de moral já que como todos vocês erro e sou paradoxal, mas amem, sejam felizes, não deixem o que vos atormenta em casa, mas canalizem-no da forma certa nestas nossas reuniões e acima de tudo RESPEITEM! Respeitem-se uns aos outros, respeitem a cultura, respeitem os spots as orgs e os artistas, respeitem os gostos e a variedade musical e se realmente só têm más intenções e não sabem conviver em sociedade, aí sim, fiquem em casa!!!

Entrevista de Pedro Lima
Foto Kharmadelic Photography